Pois é, a vida tem destas coisas e quem anda à chuva molha-se. Foi assim comigo, um dia. Depois de ter feito figuração em vários filmes nacionais apareceu o convite para entrar como figurante neste trabalho do Schroeter com a aliciante de poder ver, de bem perto, a diva do cinema europeu, a superlativa Isabelle Huppert.
A cena era complicada: uma espécie de vala comum de corpos nus a retratar um sonho da Isabelle. Eu, desnudo numa manhã fria de Fevereiro, num pavilhão duma escola qualquer em Lisboa, juntamente com outros cem figurantes de todas as idades, sexos e feitios, lá estava expectante. Tomámos posições, aleatoriamente e esperamos pela estrela da companhia. Eis que, de repente, a belíssima actriz entra e discute pormenores com o realizador sobre a cena em questão. A cena é simples e rápida: Isabelle está em delírio e grita de desespero até que as lágrimas rolem pela sua face única. Tudo normal até então. O melhor foi quando a actriz toma a sua posição para a rodagem da cena! Não é que a senhora fica mesmo ao meu lado, com as pontas das botas sob as minhas costas? Um delírio! E tinha que fazer de morto! Como seria possível reter a respiração com uma visão daquelas? Bem, lá tive que me esforçar. A acção começa, um cento de pulmões ficam parados e ouvem-se os gritos pela sala. E quando começam a deslizar as lágrimas, uma delas, por capricho ou por obra dos deuses, vai cair direitinha no meu "membro". Estremeci, sorri para dentro, e a cena não foi cortada.
Filme «Deux» a história das existências paralelas e entrecruzadas de uma mãe e das suas duas filhas, irmãs gémeas separadas à nascença. Todas elas privadas de amor filial, instáveis e incapazes de sentimentos duradoiros, elas procuram desesperadamente as suas origens. Na procura de um equilíbrio inatingível, elas não encontram calma senão na desmesura e nos dramas provocados. Apenas a ópera e a paixão ajudarão ao seu reencontro. Portugal / Alemanha - 2002 duração: 121m autoria: Cédric Anger, Werner Schroeter produção: Paulo branco, Ulrich Felsberg realização: Werner Schroeter fotografia: Elfi Mikesch música: Philippe Morel cenografia: Alberte Barsacq com: Isabelle Hhuppert, Bulle Ogier, Manuel Blanc, Arielle Dombasle, Annika Kuhl.