Delírios

Delirios do Gino

Nome: Ele

Sexta-feira, Setembro 29, 2006

Assim perdeu a Alemanha a Guerra!

Quando andava na escola primária havia um dizer. Quando alguém se inclinava para a frente, ficando o traseiro ali à mercê dum pontapé em cheio nas nádegas dizia-se: “Cuidado! Olha que foi assim que a Alemanha perdeu a guerra!”. Ainda não descobri bem a origem do dito dizer, mas suspeito que, além da alusão implícita à sodomia, havia ali algo de submissão, de desatenção. Bem, não sei. Mas suspeito.

Isto para dizer o quê? Sim, isso mesmo! Para falar da recente suspensão por parte da Ópera de Berlim à encenação da ópera "Idomeneo", de Mozart, por temer que ela possa provocar a ira de muçulmanos e criar riscos à segurança.

A “Deutsche Oper” anunciou que vai substituir quatro apresentações de "Idomeneo" programadas para Novembro por "O Casamento de Figaro" e "La Traviata". Coisa que parece normal numa ópera com programa alargado e diversificado.

A companhia berlinense disse que tomou a decisão depois de autoridades de segurança de Berlim terem avisado que, se as apresentações originalmente previstas se concretizassem, seria criado um "risco incalculável de segurança".

A polícia da capital alemã disse ignorar uma ameaça concreta. Parece que começa aqui o inclinar do dorso em posição receptiva à sodomia, ao pontapé furtivo do colega maroto que aproveita o alvo para descarregar energias no recreio da escola.

Na produção, dirigida por Hans Neuenfels, o rei Idomeneo é mostrado cambaleando sobre o palco, ao lado das cabeças decepadas de Buda, Jesus, Poseidon e do profeta Maomé, colocadas sobre cadeiras.

"Para evitar pôr em risco o público e seus funcionários, a “Deutsche Oper” de Berlim decidiu deixar de apresentar 'Idomeneo' em Novembro", disse a casa de ópera.

Além de políticos alemães que criticaram duramente a iniciativa da ópera berlinense o vice-presidente do Parlamento alemão, Wolfgang Thierse, disse que a decisão traz à tona uma nova ameaça à expressão artística na Alemanha: “Esse é um sinal muito perigoso de temores de violência motivadas pelo Islão na Alemanha. Será que as coisas chegaram ao ponto de que somos obrigados a limitar a expressão artística? O que virá a seguir?".

No entanto, apesar de cerca de 3,2 milhões de muçulmanos viverem na Alemanha, na sua maioria turcos que chegaram ao país após a 2a. Guerra Mundial e ajudaram a alimentar o “boom” económico do país no pós-guerra, apesar disso os seus representantes não foram tão radicais na sua apreciação da dita encenação, classificando-a como exagerada.

Resumindo, o que me parece aqui é uma inclinação da Alemanha, para aquela posição vulnerável. Um recuo na evolução social e política, naquilo que foram as maiores conquistas do ocidente em termos de direitos de cidadania, expressão e liberdade. A censura preventiva aqui parece-me o oposto daquilo que são os valores da sociedade europeia, dos quais a Alemanha é baluarte. Um pouco na senda do que aconteceu com as caricaturas dinamarquesas, o Ocidente parece começar a dar mostras de vacinação no que ao Islão diz respeito. Medo? E certo que os atentados mais recentes na Europa e E.U.A. vieram acordar alguns fantasmas, mas a auto-censura, mesmo antes de qualquer reacção por parte dos “visados” não mostra alguma cobardia? Mostra sim! Temos exemplos de casos em que a própria cultura e religião ocidental foi posta em causa por obras polémicas e que nem por isso deixaram de ser vistas, visionadas e expostas.

Neste caso podem aparecer vozes que clamam no sentido do oportunismo do artista (não é descabido de todo, mas será por isso que se devem colocar de lado todos os princípios de tolerância que regem a sociedade ocidental?) mas que contradizem a tradição ocidental no que diz respeito à produção artística. Vejamos os exemplos do “Piss Christ” ou do “Je Vous Salue Marie”.

No caso do “Piss Christ” de Andres Serrano, uma fotografia dum crucifixo com Jesus Cristo nele pregado, submerso em urina do próprio artista.

Esta obra venceu o prémio do “Southeastern Center For Contemporary Art” patrocinado em grande parte pelo “National Endowment For The Arts” uma organismo estatal que financia projectos artísticos. Apesar de inúmeros protestos e atentados à obra, esta foi aclamada em geral pelo arrojo e pela qualidade artística, até porque se inseria numa série de imagens “sagradas” fotografadas em fluidos corporais (além da urina constavam trabalhos com sémen, saliva, entre outros) e pela devoção católica do próprio artista.

No caso de “Je Vous Salue Marie”, escrito e realizado por Jean-Luc Godard, a polémica foi semelhante e o impacto social muito similar.

Godard simplesmente tentou experimentar contar a história nos tempos modernos. Se José era carpinteiro na bíblia, porque não taxista nos nossos tempos? Que grau de credibilidade tinha um carpinteiro há dois mil anos e que santidade tem um taxista dos dias de hoje para ser o pai terreno do Messias?
Os mistérios da fé de milhões de pessoas nos dias de hoje são assim fundamentados em pessoas comuns, em factos inexplicáveis senão pela convicção e pelo destino. Apesar da polémica acesa em torno do filme houve teólogos que não o acharam ofensivo; pelo contrário classificaram-no como inovador na forma de transmitir a mensagem da anunciação e da concepção divina.

Resumindo: A Alemanha, na sua posição de farol económico, cultural e social da Europa que se quer forte, assumiu com esta atitude da Ópera de Berlim uma posição frágil, submissa e medrosa em relação aos seus próprios actos e manifestações artísticas muito antes de ser intolerante e reservada em relação a obras vindas de “fora”.

Está aqui, e está a apanhar um chuto no cu!

"Piss Christ"


"Je Vous Salue Marie"

Sinopse da ópera "Idomeneo" de Mozart

http://jglerner.blogspot.com/2005/12/idomeneo-sinopse.html

Terça-feira, Setembro 12, 2006

Regresso.

Férias, casa nova, mudanças, doença, tratamento, disposição, rupturas, nova ligação à internet a precisar de ser afinada, re-reorganizações entre outras desculpas.
Pronto! Voltei! Vou contando as novidades e os delírios à medida das suas aparições e da ordem em que estão arquivados na minha cabeça.

Sábado, Julho 15, 2006

Tardia, mas actual.

Reacção/
Acção/
Personalidade/
Mérito/
Zidane/
Desculpa/
Vergonha/
Fraqueza/
Natureza/
Impaciência/
Intolerância/

Segunda-feira, Julho 10, 2006

Tossed Salad

Hey baby, I hear the blues a-callin', Tossed salad and scrambled eggs.
Quite stylish.
And maybe I seem a bit confused, Yeah maybe, but I got you pegged!
Ha, Ha, Ha, Ha!
But I don't know what to do with those tossed salads and scrambled eggs.
They're callin' again.
Good night, Seattle, we love you.

Segunda-feira, Julho 03, 2006

Éter num frasco.

É possível manter o éter num frasco? É! Um éter sem ondas hertzianas, mais limitado mas com o mesmo cheiro, a mesma consistência. Todas as terças-feiras, da uma às quatro da manhã lá estarei, a lançar odores musicais pelo cabo, a partir de casa e até onde me quiserem ouvir.

Rádio Amizade Online

Terça-feira, Junho 13, 2006

Hedonista, como quase toda a minha geração.

O prazer acima de tudo (sobretudo físico) como receita para a felicidade e a fuga ao sofrimento (deliberada).
A moral do hedonismo diz que é o prazer o rei e o sofrimento (imoral) o bastardo.

Desta filosofia de vida ancestral podem resultar choques ideológicos e sociais: o facto do meu prazer se sobrepor à dor do outro, do meu conforto ser o incómodo e a instabilidade do outro.

Pensava eu que era a minha geração a que mais estava agarrada a este modo de vida, culto intelectual adubado pelas músicas e filmes, pelas imagens fortes que fizeram os anos 80. O surgimento dos Yuppies, dos Junkies e de outros.

Mas estava enganado.

O Hedonismo, por mais ultrapassado que seja prevalece e domina mesmo nos que se dizem altruístas, conscientes, religiosos, perturbados, adaptados, inadaptados, activistas, relaxados, informados ou ignorantes.

Afinal, a minha geração estava (está) certa: O valor das coisas está no prazer que retiramos delas.

Isto porque o "Hedonismo Permissivo" das novas gerações se sobrepõe à simples busca do prazer. É amoral e implacável.

E agora? Narciso deve ter tido a mesma dúvida. Eu não.

Pelo prazer das coisas belas, puras e sinceras.

Molhos e condimentos.

Sou paciente e benevolente embora as narinas me ardam quando a mostarda lá chega. O Ketchup já não é tão efectivo nessa função, mas também lá chega; devagar, mas chega.
E pronto. Decidi deixar-me de molhos, condimentos e aromatizantes.
Vou virar cruel (crudele, em italiano) que é como quem diz que vou passar a comer cru, selvagem e animal que come cru, vivo e fresco, sem manteiga e paté de sardinha como entrada.

Tudo isto porque fiquei mole demais com a quantidade de molhos e caldos que me caíram em cima. Saborosos, é verdade, mas enganadores e sabotadores do palato.

E quem quiser ouvir-me, que me siga: ao primeiro sabor amargo deixem tudo no prato e peçam uma peça de fruta fresca, sem açúcar nem chantily. É que, por mais que tentem, o sabor amargo, o primeiro, vai lá ficar na memória gustativa e nunca mais sair. E vai repetir-se, sem dúvida! E depois vão dizer: "Mas que parvo! Já sabia que isto me ia cair mal!", frase feita e verdadeira que fez do Guronsan (Glucoronamida + Ácido ascórbico + Cafeína) um dos produtos mais vendidos dos laboratórios JABA. (Patrocínio à vista? :P )

Sábado, Maio 27, 2006

Teletransporte à parte.

O cheiro a óleo dos carris chega para nos levar longe, devagar mas longe. As falhas sincopadas que aumentam com a velocidade do comboio fazem o ritmo do coração. Deixamos a paisagem conhecida mil vezes para trás e uma nova vai rolando pela janela, no sentido oposto ao destino.
Parece que tudo isto se resume a esse destino implacável. A viagem, a paisagem, o que fica para trás e o que está para chegar. Desembarque. E porque não podemos desembarcar antes de lá chegarmos, ao destino, sonhamos com ele e queremos que seja agora; já!
Parámos pelo meio, entram uns, saem outros, mas até ao nosso destino, comprado à tarifa escolhida, ocupamos o lugar numerado que nos foi atribuído pela senhora simpática de que não nos lembramos e que não se lembra de nós.

Olissipo

Diz a lenda que Olissipo (o nome porque Lisboa era conhecida pelos Celtiberos) advém de Ulisses (em latim) ou Odisseu (em grego). Diz a lenda que quer dizer Cidade de Ulisses. Não sei se é um facto histórico, mas o que sei é que me senti como se estivesse no mediterrâneo.
É impossível passear por Lisboa sem sorrir. Quer pelo brilho que nos faz semicerrar os olhos e arquear os lábios em jeito de expressão de prazer injectado devagarinho, quer pela beleza daquela decadência charmosa, de luz aberta e quase ilhéu, quer pelas mil mulheres de ombros descobertos com que nos cruzamos na rua… eu sei lá!
Nestas duas metades de dia que lá passei morri de saudades de lá estar de novo.
Entre umas imperiais e um prato de caracóis, uns amendoins e tremoços (que são cortesia e nunca se pagam) e mais umas imperiais, entre esplanadas urbaníssimas com eléctricos a passarem a meio metro da mesa, entre discussões conjugais em voz alta no café da esquina, entre o júbilo de ver o Rui Costa de novo no Benfica, entre isso tudo o meu coração parou de saudades. Saudade é palavra de Lisboa e para Lisboa. A lenda diz Olissipo, eu digo Saudade. Lisboa é fado e melancolia porque se sabe que um dia já lá não estaremos de certeza.
Mal tive tempo para abraçar os pouco amigos que encontrei (abraço apertado ao Darta – o eterno sorriso – à doce Ana Luísa – nesta sua nova fase empreendedora/indigente a tentar imitar-me :P – que me abrigou gentilmente nesta minha visita de médico, beijinho à Raquel – as roupas largas também te ficam a matar! – ao Rai atarefado mas sempre disponível e carinhoso, ao Ricardo que continua a ser a pseudo-pessoa simples, e ao Alberto que me serviu umas pataniscas com arroz de feijão deliciosas ao jantar – ai que saudades de quando vivia na Madragoa.
Ainda por cima em vésperas de Santo António (a cidade já se começa a engalanar e já há cartazes a pedir apoio à marcha do bairro) a vontade de ficar é enorme! Mas lá tive que apanhar o comboio para o Porto, com vontade de sair em cada estação em que parava para ver se o mundo lá fora é como a minha Lisboa imaginada e fantasiada, para ver se cada cidade, vila ou aldeia pelo caminho me dizem que afinal há mais sítios para amar, gente para ver e lendas para confirmar.
E pronto. A noite foi divertida no Incógnito: cheia, e animada; e quero lá voltar!